Não gosto de diário eletrônico. Me sinto culpada por não
estar escrevendo. Eu poderia demonstrar meus sentimentos simplesmente com minha
letra. Mas minha preguiça não deixa. E não é só isso. Eu já escrevi hoje.
Escrevi muuito, se quiser saber.
Mas no fundo, não escrevi tudo. Tudo o que poderia dizer
sobre mim, sobre o mês, sobre a casa nova, sobre a nova rota, ou o novo quarto
com os móveis novos. Ou, ainda, os novos amigos.
Talvez eu nunca consiga. É muito para simplesmente escrever,
ou digitar, ou filmar, ou fotografar. São coisas para se viver. E talvez esse
seja meu maior pecado!
Ouço novas músicas. Visto as mesmas roupas. Vou aos mesmos
lugares. Tenho sonhos diferentes agora. Não penso tanto antes de dormir: Penso
o dia todo. Ando muito cansada. Dormindo pouco e comendo muito. Faltando na
natação.
E talvez seja só uma fase. Adaptação à nova vida.
Quem sabe seja a descoberta de mim mesma. Ou da angústia de
Sartre. Ou a perca da última gota de essência da minha alma. Ou talvez meu
espírito vida tenha ficado em casa com minhas gatas.
O que sei? Que é apenas o começo. O começo do meio. O meio
do fim. O fim do começo do meio. Não sei!
Quem sabe termine. Ou acabe. Ou seja eterno. Quem saberá
dizer? Quem saberá a cura? Quem me acalmará? Ou me excitará? Quem será?
Não gosto de meias palavras. Gosto de frases inteiras. Que
me preencham. Que me completem. Que me acalmem. Que me faça sorrir. Ou que me
faça chorar. Que me deixe angustiada dentro de meu próprio ser. Mas que nunca,
nunca seja inútil. Que nunca seja vazia. Que nunca me deixe a par de tudo. Que
nunca me preencha por inteira, ou que não se importe em preencher pelo menos em
uma mísera gota.
Porque as palavras que não preenchem, que não pingam gotas
coloridas em nossa alma, que não sejam desconexas, que não nos faça questionar,
que não nos intrigue, que não nos faça mover, sair do sofá: Essas palavras
serão em vão. Serão apenas o fruto de algum acaso triste. E esse acaso de forma
alguma colidirá com o nosso. E não colidirá com o de mais ninguém. E será
esquecido. E será perdido. E imperdoável.
O que minha alma chora, agora, é a falta. Não a falta
carnal. Talvez também a carnal. Um x-doidão cairia bem. Mas um dilúvio de
saudades também. Uma tempestade de abraços. Uma torrente de beijos sorridentes.
Uma mesa farta de assuntos em comum.
Isso não quer dizer que eu seja solitária. Nem triste. Nem
amarga.
Porque eu sou! Sou solitária. Sou
triste. Sou amarga.
Mas sou uma multidão. Sou feliz. Sou doce.
Sou o amor de uma vida. A vida de
uma vida. E nada apagará isso. E nada substituirá isso!
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